quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Palavras sem mistério

Na verdade não sabia
que há mistério naquilo que escrevo.
Pensamentos me fluem
tão fáceis, tão claros
feito água de rio em seu leito.
Se os vês escuros como a noite africana
devo perguntar-me...
se ao clarão dessa lua que hoje vês
poderias enxergar
o dia que, quando escrevo, me envolve
e me encanta?
a fala, puro lirismo...nua,
ou a paz que minha palavra canta?
De verdade nunca soube
forjar nas falas esconderijos
velar nas sombras
meu olhar sobre você
ou sobre o mundo.
pois a cada vez
me descubro
e descubro
como é simples tudo
como tudo reluz

Lúcia Couto

Renitência

Eu sou a vontade de ver o sol
onde imperam as nuvens
de ver a chuva
onde a terra rachou.
Sou o desejo
da sombra da árvore
quando a pele arde
e a saliva secou.

Peço água...

Sou aceno de adeus
no pó da estrada
E o nó da garganta
ardente...engasgada...
olhando pra morte
que nem ao menos chegou
mas já esgota a vida
na certeza inata.

Peço nada!

Lúcia Couto

O tempo em nós

Creio amiga
que é chegada a hora...
é mais que tempo
de olharmos bem dentro de nós...
mais ainda que olhamos para fora
e enxergarmos tudo...
desnudando as faces que amamos
o bom de nós
o bonito de nós
tantas vezes oculto.

Creio amiga
que é chegado o tempo
de permitir a vida...
de fazer fluir a emoção...
aquela...aquelas tantas
por tudo escondidas,
até de nós mesmas...
até por nós mesmas...
nos caminhos e escolhas
nas encostas da vida.

Creio amiga
que é chegado o tempo
da mais pura verdade
da maior das vaidades
do desejo mais absurdo
da vontade mais plena.
É chegado nosso tempo
de exigir dessa vida
a paixão mais primitiva
por aquilo que somos
mulheres inteiras
nunca mais divididas.


Lúcia Couto

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Dêem-me o silêncio!

Que se calem os tambores!
Que se anulem todas as dores
que no passado ficaram.
Que se cale a tempestade
pra que eu possa respirar
e deixar enfim
rolar a lágrima
que teima, salgada,
em me queimar os olhos.
Que se calem todos os ruídos
e se fechem todos os portais
E que me dêem o silêncio
como prêmio
à minha insignificancia mortal.
E ainda...
que parem de soprar os ventos
e no mar se instale a calmaria
pois que preciso do momento
para escrever minha agonia.
E no silêncio do mar sem ondas
rever meu tempo
passo-a-passo restaurar
meu moinho de vento.

Lúcia Couto

sábado, 27 de setembro de 2008

Reencontro III

Pois que ânsia de saber de ti!
Saber para além ainda do que contam
os poemas que li.
Sim porque cada um deles
Condensa tanta vivência...
Tanta coisa...tanta coisa...
Aliás, que seriam dos poemas
Sem vivências?
Sem almas vomitando impropérios
Sem gritos engasgados
E mortes sem velórios?
Bolhas de sabão, sacos vazios
Noites insones
Varadas por nada.
Isso seriam os poemas.

Pois que ânsia de te contar de mim!
Eu insone tantas vezes
a tela enfumaçada
Tentando enxergar algo
De dentro do nublado dos olhos
Tão úmidos
Tão meus, tão seus.
A abrir e fechar ciclos
Na solidão consentida
Dos dias
Tão meus, tão seus.
Identidade
Forjada paripasso
Pois que pensamento
Vive para além do espaço e do tempo.

E outras tantas vezes
Em que fui feliz?
Nem te contei.
Eu feliz
Sono solto
Feito algaroba ao relento
Feito pele arrepiada
De rainha emocionada
Absoluta
Sobre a natureza que cultivei.
Nem te contei.
Outro dia, por exemplo,
Alguém me amou
Sem me tomar a vida
E eu nem te contei.

Lúcia Couto

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A Renato

Quisera poder registrar pensamentos
tão rapidamente
Quanto eles me acometem.
Relâmpagos
fulgazes momentos
Entre uma tarefa e outra
(Coisa bem doméstica)
Entre uma pitada de sal e um abraço,
Entre um “oi tudo bem?”
uma mexida na panela, ao meio dia
um tédio, um cansaço.

Quisera lembrar das tantas vezes
Que pensei em você
A cada dia desses tantos que se passaram.
Lembrar “que” lembranças
E distancias
Minha alma assolaram
Nesse festejo.
Funesta emoção
Tempestade de incontrolável força
Rasgando de dentro a dentro
meu coração.

Se eu pudesse
Todas essas forças registrar
A cada instante
Com certeza longos escritos
(Mais longos do que aqueles já ditos)
Haveria que contar e,
Quem sabe?
Até um livro eu pudesse editar.
Mas que me importa o livro?
Que me importa tudo isso
É só uma história. Mais uma para alguém contar.

E histórias são tantas
Quantas?
Que importa? Que importam?
Início, meio e fim...
Murcha flor da pele
Tudo igual
Tudo vão
Tudo tão sem nexo
reflexo da solidão.
Tudo tão lindo e pobre
A cada vez quisera lembrar.

Lúcia Couto

domingo, 21 de setembro de 2008

...e por falar de lágrimas...


No entanto te digo...
Eu que sei...
Numa só gota de lágrima vertida
Infindáveis são as incógnitas
Que extraem de tuas células
Esse líquido maravilhoso.
Lágrimas!
Essa forma intensa de vida,
Que faz arder teus olhos de tanto sal...
Que faz escorrer teu nariz...qual gripe viral
Que te faz respirar, ora sufocado...ora aliviado...
Após cada enchente
Da qual nem conheces...
Ou que vais conhecendo aos poucos
a semente.