sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Sobre os 10 dias finais

17 de Setembro de 2006


Era dia 17 de Setembro de 2006.Era domingo! Preparei o almoço. Um almoço de domingo. Mesa no terraço como costumávamos às vezes. Era um dia de sol e quando iniciamos uma conversa durante o aperitivo eu mal sabia que viria logo se instalar um novo inverno na minha alma. Você falava de maneira vaga, da leitura de um texto antigo que havia encontrado...sobre a felicidade...Na medida em que você falava meu espírito lia claro nas entrelinhas das palavras ditas, nas sombras do teu olhar que fitava fixa e frequentemente o chão...evitando encontrar meus olhos. E das entrelinhas de tuas palavras retirei meu discurso, claro...sem rodeios, pois todo o seu constrangimento naquele momento me dizia que chegávamos ao fim ali e naquele momento.
A escuridão tomou conta. Na terça 19-09 ainda tentei uma conversa, uma esperança? ...Saimos...fomos ao Magia do Verde e, lembro bem, iniciei o diálogo dizendo que havia refletido acerca dos meus sentimentos e chegado à conclusão que pelo que eu sentia por você ainda valeria a pena lutar. E você? perguntei. Titubeante você esboçou uma resposta que começava assim: "Eu gosto de você mas..........." Não deixei que concluisse. E assim tudo terminou.
Dia 25 avisei no trabalho que faltaria no dia seguinte pois que te ajudaria na organização da mudança. Nesse mesmo dia à noite ainda muitas lágrimas rolaram...a montanha desabava mais uma vez. E eu me prometia que seria a última vez.
Com o rosto deformado acordei no dia 26, liguei para o trabalho para pedir caixas e o número do caminhão da mudança. Embalamos tudo e você se foi. A morte se apossou de mim violenta e precisei deitar-me no chão do escritório para não cair. Senti medo. Mal respirava. Coração quase parado. Chamei meus anjos...que não me deixassem morrer ali, daquela forma triste. Queria viver muito ainda e morrer feliz...não agora...não assim, eu me dizia.
A solidão daquele dia me acalentou e acalmou meu pranto. Quando me senti forte sobre as pernas levantei-me. Eram 16 horas. Banhei-me em água fria vesti uma roupa e sai para comprar uma planta. Oculos escuros escondiam os olhos deformados. Perguntei na loja de plantas: Qual a planta mais resistente dentre as que vocês tem? "Essa aqui..." falou a mulher apontando para um Comigo Ninguém Pode feioso que só tinha um longo caule e duas folhas amareladas. Comprei-o e cultivei. Era tempo de plantar.
Houveram dias de sol...outros tantos de chuva. Dias e noites se alternaram numa dança complexa...vai-e-vem inconstante de emoções, de momentos de estranhamento e de aproximação. No entanto as lembranças daqueles dias dolorosos jamais me abandonaram. Me pergunto ainda hoje, 17 de setembro de 2009, tres anos depois, quantos ainda terei que viver para que essas imagens se apaguem da minha memória. Talvez apenas durante o sono da morte.