segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Dêem-me o silêncio!

Que se calem os tambores!
Que se anulem todas as dores
que no passado ficaram.
Que se cale a tempestade
pra que eu possa respirar
e deixar enfim
rolar a lágrima
que teima, salgada,
em me queimar os olhos.
Que se calem todos os ruídos
e se fechem todos os portais
E que me dêem o silêncio
como prêmio
à minha insignificancia mortal.
E ainda...
que parem de soprar os ventos
e no mar se instale a calmaria
pois que preciso do momento
para escrever minha agonia.
E no silêncio do mar sem ondas
rever meu tempo
passo-a-passo restaurar
meu moinho de vento.

Lúcia Couto

sábado, 27 de setembro de 2008

Reencontro III

Pois que ânsia de saber de ti!
Saber para além ainda do que contam
os poemas que li.
Sim porque cada um deles
Condensa tanta vivência...
Tanta coisa...tanta coisa...
Aliás, que seriam dos poemas
Sem vivências?
Sem almas vomitando impropérios
Sem gritos engasgados
E mortes sem velórios?
Bolhas de sabão, sacos vazios
Noites insones
Varadas por nada.
Isso seriam os poemas.

Pois que ânsia de te contar de mim!
Eu insone tantas vezes
a tela enfumaçada
Tentando enxergar algo
De dentro do nublado dos olhos
Tão úmidos
Tão meus, tão seus.
A abrir e fechar ciclos
Na solidão consentida
Dos dias
Tão meus, tão seus.
Identidade
Forjada paripasso
Pois que pensamento
Vive para além do espaço e do tempo.

E outras tantas vezes
Em que fui feliz?
Nem te contei.
Eu feliz
Sono solto
Feito algaroba ao relento
Feito pele arrepiada
De rainha emocionada
Absoluta
Sobre a natureza que cultivei.
Nem te contei.
Outro dia, por exemplo,
Alguém me amou
Sem me tomar a vida
E eu nem te contei.

Lúcia Couto

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A Renato

Quisera poder registrar pensamentos
tão rapidamente
Quanto eles me acometem.
Relâmpagos
fulgazes momentos
Entre uma tarefa e outra
(Coisa bem doméstica)
Entre uma pitada de sal e um abraço,
Entre um “oi tudo bem?”
uma mexida na panela, ao meio dia
um tédio, um cansaço.

Quisera lembrar das tantas vezes
Que pensei em você
A cada dia desses tantos que se passaram.
Lembrar “que” lembranças
E distancias
Minha alma assolaram
Nesse festejo.
Funesta emoção
Tempestade de incontrolável força
Rasgando de dentro a dentro
meu coração.

Se eu pudesse
Todas essas forças registrar
A cada instante
Com certeza longos escritos
(Mais longos do que aqueles já ditos)
Haveria que contar e,
Quem sabe?
Até um livro eu pudesse editar.
Mas que me importa o livro?
Que me importa tudo isso
É só uma história. Mais uma para alguém contar.

E histórias são tantas
Quantas?
Que importa? Que importam?
Início, meio e fim...
Murcha flor da pele
Tudo igual
Tudo vão
Tudo tão sem nexo
reflexo da solidão.
Tudo tão lindo e pobre
A cada vez quisera lembrar.

Lúcia Couto

domingo, 21 de setembro de 2008

...e por falar de lágrimas...


No entanto te digo...
Eu que sei...
Numa só gota de lágrima vertida
Infindáveis são as incógnitas
Que extraem de tuas células
Esse líquido maravilhoso.
Lágrimas!
Essa forma intensa de vida,
Que faz arder teus olhos de tanto sal...
Que faz escorrer teu nariz...qual gripe viral
Que te faz respirar, ora sufocado...ora aliviado...
Após cada enchente
Da qual nem conheces...
Ou que vais conhecendo aos poucos
a semente.

sábado, 20 de setembro de 2008

Reencontro

Agora que as crianças dormiram
Aquele sono de infância que
nossas memórias guardam
podemos, desde nosso silêncio
ocidentalmente ocupadas
recuperar liames
enquanto pessoas amadas.
Amor jamais corrompido
Pelo tempo passado
Entre um encontro e outro...
Jamais consumido
No cotidiano desencontrado
De pessoas alheias
Ou definhantes sentimentos
Na hipocrisia pautados...


Não...não fomos nós!

Agora que as crianças dormiram
Permitindo aos adultos a deixa
De buscar seus próprios cerrados,
Vamos nós por em dia
Da nossa vida o regaço.
Vamos nós de alegrias
Preencher o terraço
Da casa que não conhecemos
Que não construímos
E que talvez... tanto quisemos.
Projeto presente em cada sono
Cada sonho comunitário
Que para além
De qualquer chavão revolucionário
Era parte de quem re-parte
Por um devir visionário.


Sim...fomos nós!


Agora que as crianças dormiram
Que se nos cheguem
Todos os tempos e palavras não ditas
Que se preencham todos os espaços
Dos quais a vida
Com seu bom(?) senso nos privou.
Que se nos cheguem
Todos os viajantes que nem cumprimentamos
E que menos ainda amamos.
Que se nos cheguem
os tempos de hoje... surrealista pintura
como os ventos que levam os invernos
como os amores que aliviam os infernos
como as dores que obrigam à cura!

Sim...somos nós!

Agora que as crianças dormiram
Que os homens se foram
Em sua busca insana
À procura do nada
É nossa vez de,
Assim como é sangrar
Uma vez por mês,
Permitir à palavra a fluidez
E ordenar a emoção do pensamento
De maneira que de agora em diante
E até o fim dos nossos tempos
Nenhuma lacuna
Ou estanque momento
Venha nos fazer lamentar
Quando uma ou outra
Parar de respirar
Em rendição à vitória do tempo.

Lúcia Couto

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Para Christian

Não somos borboletas...
é bem verdade!
Mesmo assim o poder de liberdade
que nos acomete
quando conquistamos
as cores e dores da idade
nos permite leves amores,
distantes de ranços ...
de ordens e feitores
Amores feitos de lealdade
menos para consigo
muito mais para com o outro
Amores relapsos, descontraidos
feitos, refeitos
nos leitos da saudade.
Amores per- feitos apenas...e apenas
no deleite do bem-querer
na boa energia de viver!

Lúcia Couto

Quem sou eu?

Para a pluma que resvala
Em suaves lufadas de ar
Movidas pelas ondas de calor
Que se geram e elevam
Como reflexos do astro supremo...
Eu sou a leveza!

Para a voz única jamais ouvida
Tal a perfeição dos sons que emite
Pois que nenhuma acuidade auditiva
Por mais sobrehumana que fosse
Seria capaz de captá-la...
Eu sou o timbre!

Para a dor suprema...o inóspito
O extremo humano da agonia
Aquela que não pode ser tocada
Pelo tato comum
Ou pela vontade de socorro...
Eu sou o grito!

Lúcia Couto